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Por Edu O.

Estive em Londres no mês de Junho, onde tive a oportunidade de trabalhar durante duas semanas com o grupo Candoco para um projeto especial idealizado por eles. Experiência riquíssima para minha carreira e para minha vida. Durante este período tive a oportunidade de conversar e conhecer um pouco mais sobre o trabalho dessa comapanhia que é uma referência mundial. Aqui, com sua autorização, publico uma entrevista que fiz com Pedro Machado, brasileiro, um dos diretores da Candoco Dance Company. Acredito ser importante esta publicação porque muitas falas de Pedro compactuam com o que idealizamos e iremos discutir durante o 1º Encontro de Dança Inclusiva. O que é isso?

Já vale começar a reflexão.

O que interessa ao Candoco?

Dança, Pessoas e Arte. Acreditamos que corpos e estórias diferentes façam com a dança, principalmente como arte, seja mais excitante.

Qual o discurso que o Candoco pretende levantar?

Cada peça e cada programa levanta questões próprias, que são interpretadas diferentemente de acordo com contexto e opiniões do leitor, ou público. Talvez ao longo do tempo a companhia levante, ou apóie, outras questões pela sua existência, legado e impacto. Como por exemplo, as razões pelas quais ainda parece haver uma distinção entre companhias da dança profissionais e companhias integradas/inclusivas, assim como quanto ao acesso a treino para todos.

Como companhia nós dedicamos muito tempo e energia para que qualquer pessoa possa participar da dança, principalmente ao nível profissional, independente do corpo físico que essa pessoa possua. Nós concentramos principalmente em aumentar possibilidades de treino e oportunidades profissionais para dançarinos deficientes, assim como contribuímos para uma questão estética da dança. Também tentamos oferecer modelos de trabalho. Essa dedicação é manifestada no nosso abrangente programa educacional, no lobby constante, nas condições de trabalho que oferecemos aos nossos dançarinos e na qualidade do trabalho que apresentamos.

Há uma formação específica para o dançarino com deficiência? Qual a formação dos dançarinos do grupo?

Isso é uma das maiores dificuldades que restringe o efeito que dançarinos deficientes podem ter na dança, por isso nós dedicamos uma grande parte do nosso trabalho ao treino e desenvolvimento profissional dos nosso dançarinos, assim como oferecemos treino e participação em vários níveis (para crianças, jovens, estudantes de dança, artistas e professores).

Durante três anos nós administramos um curso de formação preparatória básico de um ano (Foundation Course), e uma das nossa dançarinas atuais graduou-se nele (tendo antes feito uma faculdade de teatro com psicologia). Mas existem diversas rotas. Alguns dançarinos treinaram antes de sofrer um acidente que os deixaram cadeirantes por exemplo,- no momento me lembro de quatro . Outros conseguiram adquirir experiência através de vários cursos esporádicos e de trabalhos semi profissionais (como o Dan).

Não acho que seja primordial que alguém tenha treino formal para dançar, mas acho que treino formal é um direito de todos, e faço campanha para isso. Uma experiência de treino formal é muito intensa, em geral com dias extensos ao longo de pelo menos três anos. Neles o estudante está constantemente se deparando com questões pessoais em relação ‘a sua atitude profissional, tendo que tomar decisões e administrar seu fôlego e resistência. Afora é claro ao ensino adquirido, ‘a participação criativa em um ambiente de liberdade seguro, ‘a oportunidade de conhecer professores que possam ser inspiradores e ‘a troca com outros alunos.

A questão do treino especifico é interessante. Durante muito tempo, nós queríamos tanto ser reconhecidos como uma companhia como as outras estabelecidas, que insistíamos em procurar um treino parecido, com variações. Ainda o fazemos, mas as variações vão se aperfeiçoando e procuramos dar tempo e apoio para que todos os dançarinos possam desenvolver seu regime de treino, assim como procuramos trocas com artistas cujo trabalho seja instigador e naturalmente accessível.

Existe na Europa ou na Inglaterra alguma facilidade em se conseguir apoio financeiro por trabalhar com deficiência?

Sim mas nunca o suficiente. Nosso financiamento principal vem do mesmo pote que subsidia várias outras companhias de dança e negociamos o resultado e alcance do trabalho de acordo com os mesmos critérios. Ás vezes nos deparamos com alguns custos extras para facilitar acesso mas nós já trabalhamos com esses custos incorporados ao custo de manutenção geral.

Que eu me lembre, duas vezes nós recebemos fundos que vinham destinados especificadamente para a questão da deficiência. Uma quando demos nosso ‘Foundation Course’ e o financiamento vinha do departamento de educação e ensino do governo. O outro foi agora com o ‘Unlimited’, que é uma oportunidade e estimulo para apresentar trabalhos de coreógrafos deficientes.

Mas imagino que qualquer organização que nos apóie financeiramente leve em conta a natureza do nosso trabalho.

Na Inglaterra existem várias oportunidades financeiras ligadas ao sistema de saúde para quem queira fazer trabalhos artísticos em hospitais ou centros de pacientes e devem haver algumas oportunidades pela Europa, mas eu não saberia dizer quais.

Como é o olhar do público e da mídia sobre o trabalho do Candoco? Há diferença em relação a outros lugares que vocês se apresentam?

Em geral quando nos apresentamos no exterior a recepção do Público é bem mais calorosa e efusiva, talvez pela novidade e singularidade do nosso trabalho lá em contraste com a nossa história de quase 20 antes de turnê aqui. Convém mencionar que já nos apresentamos em muitos lugares onde Dança contemporânea não é muito presente como Sri Lanca, Filipinas, Trinidade e Quenia por exemplo.

Quanto ’a mídia, a percepção e nível de criticas tem mudado. Hoje em dia temos muitas criticas, ou matérias, que conseguem concentrar mais no trabalho do que na questão da deficiência. No Passado houveram casos em que jornalistas foram muito agressivos, especificamente em relação ao corpo de alguns dançarinos, e isso é muito chato mas hoje acontece menos. Há também aqueles que tentam interpretar o trabalho inteiro sob uma ótica pseudo política de deficiência, o que é curioso. E infelizmente existe uma tendência, até no público, de ignorar os dançarinos não-deficientes, o que também é pouco generoso. Mas as coisas estão mudando. Lembro que em 2002 estávamos em Singapura e uma jornalista escreveu uma matéria sem mencionar deficiência uma única vez. Muito sofisticada. Gosto muito desse guia que saiu no Guardian (um dos melhores jornais daqui) no ano passado, que soube capturar bem o espírito da companhia: http://www.guardian.co.uk/stage/2009/jan/06/dance-candoco

De que forma você acredita que o artista com deficiência pode conseguir uma autonomia em sua carreira? Você acha que a maioria dos grupos estimula esta autonomia?

Não entendo a que grupos você se refere. Talvez a grupos que trabalhem principalmente com dançarinos com dificuldade de aprendizagem, onde autonomia seja uma questão delicada. Acho que todo artista tem que trabalhar muito e ser bem proativo para que sua carreira seja proveitosa. Acredito que muitos artistas com deficiência acabam por fazer seu próprio trabalho, muitas vezes porque usam sua estória pessoal como conteúdo, mas também porque precisam gerar suas oportunidades. Na Candoco acreditamos que o ambiente criativo, profissional e rigoroso estimula artistas a serem autônomos, principalmente depois que deixam a companhia. Dança tem uma tendência a infantilizar dançarinos e temos muito cuidado de não perpetuar esses padrões. A maioria dos nosso ex-dançarinos continua a trabalhar, seja coreografando, dando aula ou dançando.

Para você o que é Disabled Dance?

Eu costumo dizer que isso é uma contradição, que no palco esses dançarinos não são ‘disabled’ já que o que eles estão lá pra fazer é dançar, e isso fazem muito bem. Gostaria de deixar de usá-lo de todo, talvez passando por uma fase em que chamássemos todos nossos dançarinos de ‘dislabeled’.

O desconforto maior é com essa relação de ‘nós’ e ‘eles’ que se cria ao usar termos que no fundo são muito reducionistas. No entanto, é importante lembrar de que nossas mensagem (como o marketing por exemplo) é direcionado a muitas pessoas diferentes, principalmente pessoas que não nos conhecem. Nem todo mundo está no mesmo lugar nessa viagem de esclarecimento. Se o preço para que possamos trazer mais algumas pessoas conosco, seja uma voluntária e parcial ignorância (na aparência somente), talvez valha a pena.

Parece incrível, mas eu ainda recebo e-mails de pessoas que dizem que queriam ter feito dança, mas não o fizeram por que foram desaconselhadas, devido a uma deficiência. Ao mesmo tempo que ouço pessoas dizendo, como Candoco foi importante para que seguissem esse caminho da dança. Só por isso é importante que mandemos bem clara a mensagem que descreve nosso trabalho.

Também vale lembrar que o conhecimento que a Candoco tem é proveniente dessa maneira de trabalho, que pra nós é natural. E esse conhecimento, junto com outros, nos define. Em um mercado de trabalho tão competitivo e pouco abastado temos que ter confiança de quando é propício de usar esses termos, mesmo sabendo que contam apenas uma pequena parte da estória.

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